O título completo desse post deveria ser "O português helvético: como ser literal na terra da precisão", mas faltou espaço.
Brasileiros se divertem contando piadas de português, nas quais os nossos irmãos lusitanos são caricaturas vivas de uma típica.... simplicidade, digamos.
Eu gosto mais de contar alguns casos presenciados pessoalmente, ou ouvidos de fontes seguras, que revelam uma característica marcante do povo português: a sua tendência a interpretações literais.
Veja só do que eu estou falando.
Um amigo com quem convivemos muito tempo no Brasil estava vindo para Genebra em um vôo Brasília-Lisboa, com conexão para cá.
Na altura da “refeição”, a aeromoça pergunta para o nosso amigo:
- O senhor aceita o jantar?
- Aceito, obrigado. Qual são as opções? pergunta ele.
E a portuguesa responde:
- Sim – ou não...
Esse tomar das palavras pelo seu valor nominal causa embaraços mil para os brasileiros que tentam se comunicar com os lusitanos genebrinos. Entrei em uma mercearia portuguesa há umas semanas atrás, procurando alguns produtos brasileiros que eles sempre têm por lá e reproduzo o dialogo com a dona da loja. Quase ipsis literis...
- Bom dia. A senhora tem azeite de dendê?
- Tenho sim. E ficou parada, me olhando com um semi sorriso.
- A senhora poderia ver para mim?
- Ora veja o senhor mesmo: está ali bem em cima, disse, apontando para a prateleira atrás dela.
- Sim, estou vendo, falei meio irritdo, mas a senhora poderia apanhar para mim?
- Poderia, sim, se o senhor acaso mo pedisse.
- Estou pedindo! Por favor, eu quero comprar aquela garrafinha ali!!!
- Pois não. Agora o senhor está sendo claro... São três francos e vinte centimes.
- Está bem, aqui estão... quatro francos.
- Eu não tenho troco, então serão quatro francos.
- Mas a senhora não pode cobrar a mais só porque a senhora não tem troco!
- Posso sim, o que não posso é vender com prejuízo. Isto é um magazin de importados, não uma casa de caridade!
- Não, assim não dá, onde já se viu! Eu pago três francos e depois trago os vinte centavos.
- O senhor está pensando que somos um banco, para dar-lhe crédito?
- Então não levo, pronto! disse eu, indignado. Ao sair da loja, ouvi a literal senhora dizer para alguém que devia estar atrás daquela inevitável cortina que dá sabe-se lá para onde:
- Estes brasileiros são assim mesmo. Fazem a gente perder tempo e saem sem levar nada. Pensam que estamos para brincar aos merceeiros...
Quem vier do Brasil para a Suíça tem de tomar muito cuidado com o que comenta com outro brasileiro em público, porque as chances de que alguém que estiver por perto entenda português é muito grande. A população portuguesa é a terceira maior dentre as de origem estrangeira na Suíça, quase igual às italiana e alemã (1ª e 2ª). Se somada ao crescente número de brasileiros e lusófonos africanos, dá para arriscar que aproximadamente uma a cada dez pessoas daqui entende português o suficiente para te dar uma resposta atravessada - ou um plantar um tapa na tua orelha – se você fizer algum comentário desairoso. Segure a língua!
Uma brasileira me contou que sua mãe venho visitá-la e quando estavam ambas no tram, entra um senhor e dá um forte esbarrão na senhora, sem se desculpar. Ela reclama para a filha, bem alto:
- Nossa, que grosso!
Ao que o homem replica, em bom português:
- Ora pois, a senhora sentiu?
Nossos irmãos de além-mar (aqui o certo seria dizer “aquém-mar”) não são muito conhecidos por sua gentileza, o que destoa do contexto suíço. Posso estar generalizando injustamente, mas vivi uma situação dessas e posso atestar.
Estava eu em um prédio comercial, procurando um escritório em um longo corredor. Como aqui eles não usam números, mas sim nomes, eu tive de ir de porta em porta tentando ler as plaquinhas no escuro do corredor. De uma delas saiu uma mulher, deu de cara comigo, se assustou um pouco mas disse, a la suisse:
- Pardon, monsieur! Desolée...
Mais adiante, um jovem, ao sair de outro escritório, me deu uma leve esbarrada mas logo me falou, britanicamente:
- I’m so sorry!
Aí sai do elevador um senhor apressado, me dá um encontrão daqueles de deslocar a clavícula, me arremessando até a parede oposta e ainda me diz, em português bem português:
- Ó pá, não vês por onde andas?
Mudando um pouco o foco, vejam o que me contou um amigo na semana passada.
Tendo se mudado para Genebra há seis meses, ele já estava morando no ap que tinha alugado mas ainda aguardava a chegada da mudança - e nada de notícias. Cansado de tanto esperar suas coisas e de ligar para a companhia brasileira de despacho, finalmente ele consegue localizar a mudança, que estava parada há meses no depósito de uma empresa portuguesa em Lisboa, com o inspirado nome de... Transportadora Senhora da Agonia!
Só faltou ser na rua Senhor dos Aflitos. Essa transportadora disputa o troféu de nome mais “português” com a Funerária da Boa Hora e Ajuda, também em Lisboa e o Hotel Residencial O Cortiço, em Beira. A campeã brasileira é a empresa de instalações elétricas Armagedon, de Curitiba! Bem, estou desviando do assunto...
Eu ia dizer que os negócios portugueses em Genebra têm nomes como Retardo Magazin de Vins (quem, o dono ou o freguês?) e Demolidora e Construtora Silveira (se fosse o contrário seria um problema!).
Os nomes de restaurantes portugueses, por exemplo, variam do óbvio (Le Portugais) ao inescrutável (Les Schtroumpfettes!).
Esse jeito português de dar nomes literais aos bois chega até às profissões. Li, no placar médico externo de uma clínica aqui em Genebra: Dra. Cláudia Barriga - Medicina Interna. E notei mais adiante: Dr. Plauto Machado – Ortopedia. Procurei, e não achei, o nome do proctologista - mas fiquei imaginando!
Enfim, as histórias são muitas e os causos abundantes. Com casos assim, quem precisa de piadas prontas?
03 setembro 2012
25 agosto 2012
17. VERÃO, ÁGUAS E BRASIBRINOS.
Os brasileiros genebrinos – brasibrinos, para encurtar – formam uma fauna variada de expatriados, todos meio doidos por terem vindo morar aqui.
Como um grupo, somos meio estranhos, pois nos alternamos nos estados de euforia e depressão. Deprimidos ficamos quando batem as saudades de casa, dos amigos, da família, da praia, da comida... e eufóricos quando vemos de perto coisas que não temos por lá, como uma nevasca ou um bom salário.
O verão para mim é uma tortura, pois a estação traz todo tipo de praga: moscas, pernilongos, suor, preguiça, turistas e vizinhos barulhentos. Mas para a turma saudosa de suas praias, um calor de 35º é uma fonte de alegria. Em muitas situações, uma fonte real, não metafórica. A relação com a água é um fator distintivo dos brasibrinos - e nem falo nos banhos em casa, pois não sei se o não-hábito do banho diário cruzou as fronteiras com a vizinha França, mas sim da forma como nós tratamos as diversas formações aquáticas em Genebra.
A atração dos brasileiros por água fica evidente quando se observa as pessoas em torno de uma fonte. O genebrino é o que puxa um copinho dobrável, que cuidadosamente enche com a água da bica e bebe em pequenos goles ritmados. O estrangeiro toma ‘no bico”, jorrando água pelos cantos da boca e espalhando respingos nos outros com as mãos. O brasileiro é o que mergulha a cabeça na bacia da fonte, berra brrrrr e sai sacudindo a cabeleira feito um cachorro depois de sair do banho. Rindo, diz: ai que delícia! – e sai enxugando as mãos nos fundilhos do bermudão.
Brasibrinos são loucos que não percebem que moram no sopé dos Alpes e que o lago é composto por água derretida de geleiras, com temperatura quase igual, alimentado por rios que vêm diretamente das montanhas, brancos, espumando e rosnando como cachorros bravos. Pensando equivocadamente que o lago pode ser tomado como o mar do nordeste, azul e claro, caem na água congelante para se refrescar. E conseguem! Ficam refrescados para o ano todo, sempre espirrando e com narizes cor de rabanete escorrendo feito clara de ovo quebrado.
Outros (poucos) são mais atirados e vão nadar nos próprios rios de gelo recém-derretido, como o Arve, que passa aqui bem atrás de casa. É um rio de correnteza forte, acelerada, como se tivesse pressa de chegar no Rhône, onde deságua em plano centro da cidade. O Arve, que carrega material sedimentar e portanto de águas mais escuras, encontra o limpíssimo Rhône acabado de sair do lago Leman, formando a Junction, espécie de encontro das águas do Negro e do Solimões em bem menor escala. Talvez por isso atraia tantos brasileiros nos dias quentes e mesmo em finais de semana mais frios. O pessoal leva cães, gatos, crianças e sogras para nadar no rio, pescar na confluência e farofar nas margens.
Perto aqui de casa, o Arve é barrado por uma pequena usina hidrelérica. É proibido andar nas suas margens nas cercanias da usina e em locais onde as encostas são muito abruptas – na prática isso significa quase toda a extensão do rio na região. Um pouco acima da barragem formou-se uma pequena praia, com leito de pedras escorregadias. Acima e abaixo dessa prainha, só margens bem acentuadas e com mais placas avisando que é perigoso nadar ali do que árvores na mata ciliar.
Perfeito para a brasileirada! Bonito, “típico”, despoluído, meio deserto – e proibido! Tá prá nós!
Os brazuquinhas machos logo querem cair na água, e caem. Sendo mais claro: muitos caem das margens na água, meio sem querer, escorregando barranco abaixo, por conta própria, descuido ou empurrão. Outros caem por terem ido molhar a ponta dos pés, escorregado nas pedras lisas e ido parar na correnteza com um splash bonito de se ouvir. Claro que depois de meio segundo de contato com a água fria já querem voltar para onde vieram, fazendo brrrrrr como uma britadeira desregulada e com a pele feito frango depenado..
É um espetáculo e tanto, que sempre que posso vou assistir de camarote, sentado à sombra de uma bela árvore de onde tenho uma boa vista do campo de batalha. Ainda não cheguei a ver alguém sendo arrastado pela correnteza e cair da cachoeira (que deve ter uns dois metros) antes da represa da usina, mas ainda vou ver, se o calor continuar e o lugar ficar mais popular entre os meus afoitos compatriotas.
Um aspecto do ser feminino que eu ainda não consegui explicar, mas posso afirmar pela observação, é que as mulheres sentem mais frio do que os homens. Não precisa nem olhar, basta comparar os gritos de ‘brrrrr’, ‘que gelo!’, ‘tô congelando!’ emitidos logo depois da entrada na água por homens e por mulheres. Estas vencem em volume, altura e duração, sem fazer esforço. Sempre. Isto é, tem exceções - bem agudas, por sinal - mas isso só confirma a regra.
Quem for aos Bains de Paquis ou à Genève-Plage nessa época vai ver que mesmo meio azuis de frio, ficam no lago alguns jovens fazendo algazarra, transmutados em crianças arteiras, jogando água uns nos outros, pulando em um pé só e fazendo “cavalinho-de-guerra”, enquanto as namoradas tocam "ai se eu te pego" em um boombox.
Um show de alegria no verão suíço, que rezo para que passe logo e assim eu possa de novo me sentar tranquilo na beira do lago num dia cinzento, fresco - e silencioso.
O verão para mim é uma tortura, pois a estação traz todo tipo de praga: moscas, pernilongos, suor, preguiça, turistas e vizinhos barulhentos. Mas para a turma saudosa de suas praias, um calor de 35º é uma fonte de alegria. Em muitas situações, uma fonte real, não metafórica. A relação com a água é um fator distintivo dos brasibrinos - e nem falo nos banhos em casa, pois não sei se o não-hábito do banho diário cruzou as fronteiras com a vizinha França, mas sim da forma como nós tratamos as diversas formações aquáticas em Genebra.
A atração dos brasileiros por água fica evidente quando se observa as pessoas em torno de uma fonte. O genebrino é o que puxa um copinho dobrável, que cuidadosamente enche com a água da bica e bebe em pequenos goles ritmados. O estrangeiro toma ‘no bico”, jorrando água pelos cantos da boca e espalhando respingos nos outros com as mãos. O brasileiro é o que mergulha a cabeça na bacia da fonte, berra brrrrr e sai sacudindo a cabeleira feito um cachorro depois de sair do banho. Rindo, diz: ai que delícia! – e sai enxugando as mãos nos fundilhos do bermudão.
Brasibrinos são loucos que não percebem que moram no sopé dos Alpes e que o lago é composto por água derretida de geleiras, com temperatura quase igual, alimentado por rios que vêm diretamente das montanhas, brancos, espumando e rosnando como cachorros bravos. Pensando equivocadamente que o lago pode ser tomado como o mar do nordeste, azul e claro, caem na água congelante para se refrescar. E conseguem! Ficam refrescados para o ano todo, sempre espirrando e com narizes cor de rabanete escorrendo feito clara de ovo quebrado.
Outros (poucos) são mais atirados e vão nadar nos próprios rios de gelo recém-derretido, como o Arve, que passa aqui bem atrás de casa. É um rio de correnteza forte, acelerada, como se tivesse pressa de chegar no Rhône, onde deságua em plano centro da cidade. O Arve, que carrega material sedimentar e portanto de águas mais escuras, encontra o limpíssimo Rhône acabado de sair do lago Leman, formando a Junction, espécie de encontro das águas do Negro e do Solimões em bem menor escala. Talvez por isso atraia tantos brasileiros nos dias quentes e mesmo em finais de semana mais frios. O pessoal leva cães, gatos, crianças e sogras para nadar no rio, pescar na confluência e farofar nas margens.
Perto aqui de casa, o Arve é barrado por uma pequena usina hidrelérica. É proibido andar nas suas margens nas cercanias da usina e em locais onde as encostas são muito abruptas – na prática isso significa quase toda a extensão do rio na região. Um pouco acima da barragem formou-se uma pequena praia, com leito de pedras escorregadias. Acima e abaixo dessa prainha, só margens bem acentuadas e com mais placas avisando que é perigoso nadar ali do que árvores na mata ciliar.
Perfeito para a brasileirada! Bonito, “típico”, despoluído, meio deserto – e proibido! Tá prá nós!
Os brazuquinhas machos logo querem cair na água, e caem. Sendo mais claro: muitos caem das margens na água, meio sem querer, escorregando barranco abaixo, por conta própria, descuido ou empurrão. Outros caem por terem ido molhar a ponta dos pés, escorregado nas pedras lisas e ido parar na correnteza com um splash bonito de se ouvir. Claro que depois de meio segundo de contato com a água fria já querem voltar para onde vieram, fazendo brrrrrr como uma britadeira desregulada e com a pele feito frango depenado..
É um espetáculo e tanto, que sempre que posso vou assistir de camarote, sentado à sombra de uma bela árvore de onde tenho uma boa vista do campo de batalha. Ainda não cheguei a ver alguém sendo arrastado pela correnteza e cair da cachoeira (que deve ter uns dois metros) antes da represa da usina, mas ainda vou ver, se o calor continuar e o lugar ficar mais popular entre os meus afoitos compatriotas.
Um aspecto do ser feminino que eu ainda não consegui explicar, mas posso afirmar pela observação, é que as mulheres sentem mais frio do que os homens. Não precisa nem olhar, basta comparar os gritos de ‘brrrrr’, ‘que gelo!’, ‘tô congelando!’ emitidos logo depois da entrada na água por homens e por mulheres. Estas vencem em volume, altura e duração, sem fazer esforço. Sempre. Isto é, tem exceções - bem agudas, por sinal - mas isso só confirma a regra.
Quem for aos Bains de Paquis ou à Genève-Plage nessa época vai ver que mesmo meio azuis de frio, ficam no lago alguns jovens fazendo algazarra, transmutados em crianças arteiras, jogando água uns nos outros, pulando em um pé só e fazendo “cavalinho-de-guerra”, enquanto as namoradas tocam "ai se eu te pego" em um boombox.
Um show de alegria no verão suíço, que rezo para que passe logo e assim eu possa de novo me sentar tranquilo na beira do lago num dia cinzento, fresco - e silencioso.
09 agosto 2012
16. Hoje é terça, deve ser a Bélgica!
Muitos turistas brasileiros não se tocam que estão em outras terras, com outra cultura e outros costumes. Não são todos, é claro, mas muitos vêm para a Europa sem qualquer noção de onde estão ou do que esperar dos países que visitam, às vezes no ritmo de um por dia: “Hoje é terça, deve ser a Bélgica” é o titulo de um velho filme que me veio agora à cabeça.
A maioria quer tirar fotografias, posando em frente a monumentos e edificações famosas, produzindo e colecionando provas documentais de que realmente passaram por lá, para depois poder mostrar para os amigos – de preferência para os que ainda não puderam fazer a mesma viagem.
- Olha eu aqui, bem naquele castelo... como era mesmo o nome, amor? Foi na Alemanha ou em Berlim?
- Onde era eu não me lembro, querida... mas lembro que era um castelão de pedra, meio medieval e tudo!
Por isso eu não consigo enxergar a relação (que muitos dizem que existe) entre turismo e cultura. Viajar pode ser só sair de seu pais e voltar carregado de bugigangas, sem ter mudado nada. Visitar uma biblioteca não desperta, por si, a vontade de ler.
Estava eu tranquilamente tomando um refri na beira do lago quando minha paz foi interrompida pela chegada de uma excursão – ó vida – de brasileiros. Ouvi uma senhora responder para alguém que tinha perguntado o que ela gostaria de beber:
- Eu tomo qualquer coisa, não quero incomodar, não... um suco, pode ser, de goiaba ou maracujá mesmo...
E uma outra dizendo para as companheiras:
- Vamos ver se naquela banca lá adiante tem coxinha ou um pastelzinho?
Pensam que é brincadeira? Não é, não. Juro e perjuro que é verdade.
Vi um senhor comprando para levar para o filho uma camiseta branca com a frase “Eu estive em Genebra” estampada no peito, sobre um desenho do jet d’eau em vermelho. O homem me pegou olhando e gentilmente ofereceu:
- Leve uma dessas para o seu filho também, ele vai gostar! Estão duas por 10 francos... a gente pode rachar. Por que não aproveita?
- Acho que não, obrigado - eu disse, caindo fora antes de ceder à vontade de responder:
- Não levo porque se eu pego meu filho usando uma dessas, tiro no tapa! Pensando melhor, se eu desse um desses horrores de presente, eu é que levaria os tapas – e merecidamente.
Eu sempre me surpreendo ao ver como os turistas, ao chegarem depois de quatro horas de viagem, a uma vilazinha suíça “típica”, são capazes de passar quinze minutos visitado o local e duas horas nas lojinhas que se amontoam na praça central, onde são vendidas vaquinhas de cerâmica made in china, canivetes, relógios de marcas famosas que ninguém conhece, tocas de lã com orelhas felpudas, pratinhos com o Matterhorn em relevo dourado e mais canivetes. Ainda não vi um relógio-cuco de pulso, mas deve ter um por aí, esperando para ser comprado por um brasileiro.
Cansados mas contentes com as aquisições, suas memórias mais leves por já terem esquecido por onde passaram, os excursionistas voltam para sua base em seu hotel em Genebra, com os quilos de chocolate que compraram logo no início do dia.
É bem fácil saber onde estão hospedados: basta seguir o rastro de chocolate. As lindas barras obviamente não agüentam o calor infernal no ônibus e tentam escapar das sacolas e mochilas, pingando por todos os vãos e costuras.
Mais tarde, devidamente banhados e arrumados (dando um descanso para as suadas camisas da seleção) os turistas canarinhos resolvem cair na noite genebrina. No início, saem procurando um bom lugar para comer um fondue, beber um vinhozinho, ouvir uma musiquinha e quem sabe até dançar. A noite de domingo promete!
Depois de três horas vagando pelas desertas ruas da cidade, sem achar nada (nada mesmo) aberto, já estão dispostos a comer um cachorrão no carrinho da esquina, engolido com cerveja quente, mas o cachorreiro – como todo mundo aqui - não trabalha no domingo.
O jeito vai ser comer as bolachinhas secas que foram dadas na excursão e guardadas na bolsa para uma emergência como essa. Para beber, compartilhando o único copo plástico, água da torneira, branca e com gosto de giz. Estão com sorte: essa, pelo menos, sai bem gelada!
A maioria quer tirar fotografias, posando em frente a monumentos e edificações famosas, produzindo e colecionando provas documentais de que realmente passaram por lá, para depois poder mostrar para os amigos – de preferência para os que ainda não puderam fazer a mesma viagem.
- Olha eu aqui, bem naquele castelo... como era mesmo o nome, amor? Foi na Alemanha ou em Berlim?
- Onde era eu não me lembro, querida... mas lembro que era um castelão de pedra, meio medieval e tudo!
Por isso eu não consigo enxergar a relação (que muitos dizem que existe) entre turismo e cultura. Viajar pode ser só sair de seu pais e voltar carregado de bugigangas, sem ter mudado nada. Visitar uma biblioteca não desperta, por si, a vontade de ler.
Estava eu tranquilamente tomando um refri na beira do lago quando minha paz foi interrompida pela chegada de uma excursão – ó vida – de brasileiros. Ouvi uma senhora responder para alguém que tinha perguntado o que ela gostaria de beber:
- Eu tomo qualquer coisa, não quero incomodar, não... um suco, pode ser, de goiaba ou maracujá mesmo...
E uma outra dizendo para as companheiras:
- Vamos ver se naquela banca lá adiante tem coxinha ou um pastelzinho?
Pensam que é brincadeira? Não é, não. Juro e perjuro que é verdade.
Vi um senhor comprando para levar para o filho uma camiseta branca com a frase “Eu estive em Genebra” estampada no peito, sobre um desenho do jet d’eau em vermelho. O homem me pegou olhando e gentilmente ofereceu:
- Leve uma dessas para o seu filho também, ele vai gostar! Estão duas por 10 francos... a gente pode rachar. Por que não aproveita?
- Acho que não, obrigado - eu disse, caindo fora antes de ceder à vontade de responder:
- Não levo porque se eu pego meu filho usando uma dessas, tiro no tapa! Pensando melhor, se eu desse um desses horrores de presente, eu é que levaria os tapas – e merecidamente.
Eu sempre me surpreendo ao ver como os turistas, ao chegarem depois de quatro horas de viagem, a uma vilazinha suíça “típica”, são capazes de passar quinze minutos visitado o local e duas horas nas lojinhas que se amontoam na praça central, onde são vendidas vaquinhas de cerâmica made in china, canivetes, relógios de marcas famosas que ninguém conhece, tocas de lã com orelhas felpudas, pratinhos com o Matterhorn em relevo dourado e mais canivetes. Ainda não vi um relógio-cuco de pulso, mas deve ter um por aí, esperando para ser comprado por um brasileiro.
Cansados mas contentes com as aquisições, suas memórias mais leves por já terem esquecido por onde passaram, os excursionistas voltam para sua base em seu hotel em Genebra, com os quilos de chocolate que compraram logo no início do dia.
É bem fácil saber onde estão hospedados: basta seguir o rastro de chocolate. As lindas barras obviamente não agüentam o calor infernal no ônibus e tentam escapar das sacolas e mochilas, pingando por todos os vãos e costuras.
Mais tarde, devidamente banhados e arrumados (dando um descanso para as suadas camisas da seleção) os turistas canarinhos resolvem cair na noite genebrina. No início, saem procurando um bom lugar para comer um fondue, beber um vinhozinho, ouvir uma musiquinha e quem sabe até dançar. A noite de domingo promete!
Depois de três horas vagando pelas desertas ruas da cidade, sem achar nada (nada mesmo) aberto, já estão dispostos a comer um cachorrão no carrinho da esquina, engolido com cerveja quente, mas o cachorreiro – como todo mundo aqui - não trabalha no domingo.
O jeito vai ser comer as bolachinhas secas que foram dadas na excursão e guardadas na bolsa para uma emergência como essa. Para beber, compartilhando o único copo plástico, água da torneira, branca e com gosto de giz. Estão com sorte: essa, pelo menos, sai bem gelada!
30 julho 2012
15. UM BOM CONSELHO.
Genebra, feito uma ilha, é um pedaço de terra suíça cercada de França por todos os lados.
Está ligado à Suíça propriamente dita apenas por um fiozinho de terra na direção de Lausanne e pelo lago, que também é francês em boa parte. Até para chegar ao Valais no lado sul do lago é preciso passar por um pedaço da França antes de entrar na Suíça novamente.
Encravado em território francês, falando francês, acelerando partículas subatômicas entre os dois países e até mesmo produzindo vinho francês, o cantão de Genebra é um pedaço de terra gaulesa que veio parar molhar os pés no lago e viro suíço - e eu nunca ouvi uma explicação convincente para isso.
Estranha situação, que não é apenas geográfica. Vai ver que é de propósito, para a Confederação Helvética ir se livrando aos poucos de Genebra e passando esse abacaxi para a nação vizinha, junto com todos os diplomatas e técnicos dos organismos internacionais que pesam no bolso dos suíços desde a Liga das Nações.
Estas instituições foram as responsáveis pela formação do caráter internacional de Genebra, que é uma cidade cosmopolita. Aqui se ouve de tudo nas ruas: inglês, português, sudanês, turco, hindi e até francês, de vez em quando.
Mas já não são mais os diplomatas e funcionários de colarinho branco que dão esse tom colorido à cidade: é a quantidade de candidatos a trabalhador que aporta todos os dias no cantão, onde é muito fácil entrar como turista e ir ficando, ilegalmente é claro, indefinidamente, pegando o trabalho que pintar.
Contei em outro post que tive de obter o passaporte europeu de animais para a Luna, minha nova ‘cã’. Quando fui buscar o tal passaporte uma senhora que fazia a limpeza no consultório da veterinária me falou:
- Pronto, painho... Eu já estou aqui faz dez anos e ainda não tenho meus ‘papel’... e sua cachorrinha que tem só quatro meses de vida já tem até passaporte!
Triste realidade onde os cães têm mais direitos que as pessoas, pensamos ambos, em silenciosa sintonia.
É facilmente observável o forte fluxo de trabalhadores pouco (ou nada) qualificados, que vêm para cá em busca de uma vida melhor ou do sonho de fazer um pé-de-meia e voltar para seu país depois de uns anos ralando por estas bandas.
Há também um razoável contingente de trabalhadoras do sexo, vindas da nossa pátria-mãe ou de outro pais europeu. Nesse caso, não me atrevo a falar nada sobre sua qualificação profissional ou seu domínio da língua...
Seja como for, não parece ser um negócio tão bom, o das raparigas. Certo dia ouvi uma moça conversando alto no seu celular, em bom ‘brasileiro’, enquanto fazia compras em uma grande loja de departamentos. A não ser que ela estivesse simplesmente querendo se livrar da concorrência, me pareceu um bom conselho:
- Não, amiga, não venha não... Aqui é tudo caro prá caramba! A gente dá, dá, dá e não consegue guardar dinheiro...
28 julho 2012
14. TRIBOS BRAZUCAS 1ª parte.
É bem interessante observar a paisagem etnográfica brasileira em Genebra.
Até onde eu pude perceber, são três as grandes tribos brazucas aqui.
A primeira é a tribo, cada vez mais numerosa, dos brasileiros que aportam em terras genebrinas em busca de trabalho, ou melhor, de dinheiro. Não está incluída aqui aquela pequena minoria que vem em busca do seu próprio dinheiro, nos bancos suíços.
A segunda é mais high end, composta pelos diplomatas e pelo pessoal que vem trabalhar por uns tempos nos organismos internacionais com sede em Genebra, como a OMS (Saúde), OIT (Trabalho), WIPO (propriedade intelectual) a Cruz Vermelha e dezenas de outras. Essa tribo sofre críticas dos suíços porque não paga impostos mas se beneficia de todos os serviços públicos – o que, convenhamos, não é justo, mas quem está nessa categoria diz que essa é uma boa fórmula para o governo não desperdiçar os seus impostos: basta não recolher nada.
Um bom número de executivos, engenheiros e técnicos de empresas multinacionais com filiais no Brasil também cabem nesse primeiro grupo – mas esses pagam (imagino) seus impostos e levam uma vida à parte das outras tribos.
A terceira é a tribo dos turistas e estudantes “de intercâmbio” (sinônimos, para todos os efeitos). Vou comentar todas em posts próprios, começando hoje com a primeira, a dos ‘brazucas’.
Esta tribo é a mais corajosa. A maioria não fala nada de francês - nem de alemão ou italiano, idiomas oficiais, ou de inglês, a língua franca dos expatriados. Poucos sabem alguma coisa sobre o país para onde estão vindo e, sem falar o idioma e sem qualificação, só conseguem os trabalhos que não demandam expertise, geralmente braçais, sazonais, flutuantes, como o de diarista, ajudante de cozinha, mão de ajuda nos vinhedos e similares. Vida dura – mas, como disse um recém chegado, “comparada com o quê?”
Depois de um certo tempo aqui, alguns partem para a prestação de serviços para os demais brasileiros e tem até quem montou seu próprio negócio. Para cada um que deu certo, no entanto, existem vários que deram com os burros n’água; mas isso não é nada diferente do que acontece no Brasil e assim o pessoal não se abate e parte para outra, na terrinha brasilis ou em outros locais extranacionais.
Por falar em negócios, soube de um caso interessante. Os suíços são um povo tão estranho que nem as crianças gostam de coisas doces. Já os brasileiros... Duas brasileiras montaram aqui um negócio que parecia muito promissor: fazer doces para festas infantis. Pesquisaram e vira m que não havia nada de doces para aniversários, nem nos supermercados, nem nas panificadoras ou mesmo nas chocolaterias, só alguns bolos ruins e sem graça. Compraram então panelas e ingredientes, fizeram um panfleto e logo tiveram a primeira encomenda.
Depois dos parabéns, as crianças atacaram os docinhos e ... cuspiram tudo, no chão, nas paredes e nas outras crianças, fazendo caretas como se tivessem comido jiló (ou o equivalente deles)!
Acharam insuportavelmente doces os lindos brigadeiros, dois-amores e cajuzihos tão caprichadamente preparados pelas meninas com as receitas de suas avós (já falecidas, coitadas, diabéticas e obesas). As moças faliram por choque cultural.
Outras iniciativas dão muito certo: um dos empregos em alta é o de pastor – já tem muitos por aqui, pastoreando esperanças e sonhos dos emigrados. O de pinguceiro também, pois a ‘caipirina’ é um drink bem popular nos botecos da região
Depois de alguns anos nestas quebradas, muitos brazucas desenvolvem um estranho dialeto, uma mistura inusitada de português brasileiro, com expressões regionais, francês, inglês e outras menos cotadas. Um exemplo, que ouvi com esses ouvidos moucos:
- Seu Antonio, to aperreado. Não deu pra mim chegar antes porque eu já tava no bus quando vi que tinha esquecido a minha carte d’abbonement e tive de voltar lá no parking onde eu tinha ido fazer um replacé no weekend. Aí tive de pegar o tram, descer na place ali do lado da Mairie e vir picando a mula. No caminho ainda passei no marché e comprei uns produits de bricolage pra gente ajeitar umas coisinhas na salle de bains ... Se o senhor puder me voltar la monnaie, eu agradeço beaucoup!
A primeira é a tribo, cada vez mais numerosa, dos brasileiros que aportam em terras genebrinas em busca de trabalho, ou melhor, de dinheiro. Não está incluída aqui aquela pequena minoria que vem em busca do seu próprio dinheiro, nos bancos suíços.
A segunda é mais high end, composta pelos diplomatas e pelo pessoal que vem trabalhar por uns tempos nos organismos internacionais com sede em Genebra, como a OMS (Saúde), OIT (Trabalho), WIPO (propriedade intelectual) a Cruz Vermelha e dezenas de outras. Essa tribo sofre críticas dos suíços porque não paga impostos mas se beneficia de todos os serviços públicos – o que, convenhamos, não é justo, mas quem está nessa categoria diz que essa é uma boa fórmula para o governo não desperdiçar os seus impostos: basta não recolher nada.
Um bom número de executivos, engenheiros e técnicos de empresas multinacionais com filiais no Brasil também cabem nesse primeiro grupo – mas esses pagam (imagino) seus impostos e levam uma vida à parte das outras tribos.
A terceira é a tribo dos turistas e estudantes “de intercâmbio” (sinônimos, para todos os efeitos). Vou comentar todas em posts próprios, começando hoje com a primeira, a dos ‘brazucas’.
Esta tribo é a mais corajosa. A maioria não fala nada de francês - nem de alemão ou italiano, idiomas oficiais, ou de inglês, a língua franca dos expatriados. Poucos sabem alguma coisa sobre o país para onde estão vindo e, sem falar o idioma e sem qualificação, só conseguem os trabalhos que não demandam expertise, geralmente braçais, sazonais, flutuantes, como o de diarista, ajudante de cozinha, mão de ajuda nos vinhedos e similares. Vida dura – mas, como disse um recém chegado, “comparada com o quê?”
Depois de um certo tempo aqui, alguns partem para a prestação de serviços para os demais brasileiros e tem até quem montou seu próprio negócio. Para cada um que deu certo, no entanto, existem vários que deram com os burros n’água; mas isso não é nada diferente do que acontece no Brasil e assim o pessoal não se abate e parte para outra, na terrinha brasilis ou em outros locais extranacionais.
Por falar em negócios, soube de um caso interessante. Os suíços são um povo tão estranho que nem as crianças gostam de coisas doces. Já os brasileiros... Duas brasileiras montaram aqui um negócio que parecia muito promissor: fazer doces para festas infantis. Pesquisaram e vira m que não havia nada de doces para aniversários, nem nos supermercados, nem nas panificadoras ou mesmo nas chocolaterias, só alguns bolos ruins e sem graça. Compraram então panelas e ingredientes, fizeram um panfleto e logo tiveram a primeira encomenda.
Depois dos parabéns, as crianças atacaram os docinhos e ... cuspiram tudo, no chão, nas paredes e nas outras crianças, fazendo caretas como se tivessem comido jiló (ou o equivalente deles)!
Acharam insuportavelmente doces os lindos brigadeiros, dois-amores e cajuzihos tão caprichadamente preparados pelas meninas com as receitas de suas avós (já falecidas, coitadas, diabéticas e obesas). As moças faliram por choque cultural.
Outras iniciativas dão muito certo: um dos empregos em alta é o de pastor – já tem muitos por aqui, pastoreando esperanças e sonhos dos emigrados. O de pinguceiro também, pois a ‘caipirina’ é um drink bem popular nos botecos da região
Depois de alguns anos nestas quebradas, muitos brazucas desenvolvem um estranho dialeto, uma mistura inusitada de português brasileiro, com expressões regionais, francês, inglês e outras menos cotadas. Um exemplo, que ouvi com esses ouvidos moucos:
- Seu Antonio, to aperreado. Não deu pra mim chegar antes porque eu já tava no bus quando vi que tinha esquecido a minha carte d’abbonement e tive de voltar lá no parking onde eu tinha ido fazer um replacé no weekend. Aí tive de pegar o tram, descer na place ali do lado da Mairie e vir picando a mula. No caminho ainda passei no marché e comprei uns produits de bricolage pra gente ajeitar umas coisinhas na salle de bains ... Se o senhor puder me voltar la monnaie, eu agradeço beaucoup!
16 julho 2012
13. O MISTÉRIO DAS ‘TROIS SEMAINES’
A pontualidade
suíça não deve ser confundida com a britânica. Os britânicos contam o tempo em
segundos; os suíços em blocos de três semanas.
É fácil constar
isso, depois de algum tempo morando aqui. Qualquer serviço, público ou privado,
demora exatamente três semanas para ser realizado. Ou múltiplos dessa medida.
Fui descobrindo
aos poucos esse curioso traço da personalidade local.
Uns dois meses
depois da nossa chegada, fomos visitar algumas lojas de automóveis para
conhecer os modelos, preços e prazos. Eu comecei a estranhar quando na terceira
revenda seguida me disseram que o carro demoraria três semanas para chegar na
loja. Que coincidência, pensei eu. Depois vi que era uma resposta padrão, que
todos os revendedores usavam meio sem pensar, quase automaticamente.
Bem, finalmente
escolhemos uma boa oferta e, conformados com o prazo de entrega, aguardamos
pacientemente as três semanas previstas e fomos buscar o carro. Beleza, pensei,
agora é só ver com eles onde emplacar e sair dirigindo. Que nada. Fui avisado
que só poderíamos tirar o carro dali depois de emplacado. E quanto tempo demora
isso? perguntei, inocentemente. Adivinhem a resposta: três semanas, é claro... E
foi esse o tempo que nosso novo veículo ficou ali, branquinho e brilhando, não
em um pátio qualquer, mas bem no centro da loja, aguardando placa e paciência.
Coisas semelhantes
foram acontecendo nos meses seguintes, em inúmeras outras situações, desde
entrega de encomendas, vistoria de seguros, conserto de aquecimento – e até mesmo na policia, onde uma
amiga foi registrar a perda de uma carteira com documentos.
É melhor a senhora
esperar um pouco antes de dar queixa, madame. Pode ser que alguém encontre sua
carteira e entregue em um achados e perdidos. Por favor, aguarde umas três
semanas e retorne aqui, se necessário. Bon jour!
Para que não
restasse qualquer dúvida de que coincidência alguma, em todo o universo,
poderia explicar esse fenômeno, teve mais essa.
Depois de, é
claro, três semanas, um senhor apareceu lá em casa para instalar TV a cabo e
acesso à internet. Estudou fiação e cabeamento e me disse, educadamente, que
não iria poder terminar a instalação pois faltava um conector para a versão HD
do pacote que tínhamos comprado. Não se preocupe, me disse ele, todo atencioso.
Vou fazer o pedido agora e volto assim que a peça chegar, em....
- ... três semanas!
disse eu, no ato.
Desculpe, eu não
sabia que o senhor já era nosso cliente... Que bom, o senhor já está bem familiarizado
com os nossos procedimentos!
Sim... e como !
pensei com meus botões.
É assim até em
coisas que são do interesse das próprias empresas e pessoas, como no envio de cartões,
entrega de contas e cobrança de faturas.
Duas tentativas de
explicação vieram à minha mente, antes de eu atinar com outra mais plausível.
A primeira é histórica:
baseia-se em um número mágico talhado em um menir a gerações e gerações pelos
druidas das primeiras tribos helvéticas, os doidos que passaram os Alpes vindos
sabe-se lá de onde. Conta a lenda que a tribo, gelados e cansados pela escalada,
parou para descansar à beira de um dos lagos e todos pediram um chocolate
quente para se esquentar. Como a beberagem demorou três semanas para ser servida,
os três sobreviventes resolveram ficar e nunca mais foram embora. Daí a prática
do prazo padrão, desde os fundadores.
A segunda é mais
científica: trata-se de pura programação genética. Está escrito no DNA suíço
e eles não podem fazer nada a
respeito, pois são gens hereditários e dominantes. Descobriu-se que são ativados
na terceira semana de vida, quando o bebê descobre que chegou a hora da
primeira mamada.
Isso explica por
que os suíços investem tanto em pesquisa genética: andam querendo descobrir uma
forma de ampliar a influência daqueles gens para quatro semanas, ganhando um
tempinho para os imprevistos.
A terceira é mais
mundana: são sempre três semanas porque duas semanas é pouco tempo para se
fazer qualquer coisa, na Suíça. Tudo aqui é devagar, quase parando. Ou melhor,
parado – só anda depois de ..... nem vou dizer para não ficar repetitivo.
A paciência é equipamento de sobrevivência por
estas bandas. Sei disso, mas uma vez quase perdi a dita cuja. Foi quando um
técnico apareceu, pela terceira vez, para fazer medições visando a instalação
da fibra ótica prometida pela companhia há tempos. Virou, mexeu e me disse que
teria de retornar para finalizar o serviço.
- O senhor não vai
me dizer outra vez que vai demorar mais três semanas, não é? – falei, vermelho
pelo esforço de conter o berro indignado.
Ele colocou a mão
no queixo, me olhou calmamente e me disse, meio à inglesa:
- Não senhor, fique
tranqüilo. Penso que seria seguro, diria até bem razoável, o senhor não esperar
a instalação em prazo menor do que um ano...
Ah, que alivio! Se
ele tivesse dito “oui, trois semaines” eu não esperaria o prazo regular: teria
esganado o homem ali mesmo, na hora.
Mas como tudo é
feito na maior civilidade e você é sempre tratado com toda a educação, fica bem
difícil reclamar da demora inexplicável e injustificável. Como ralhar em altos brados
com uma senhora delicada e atenciosa, que diz tão civilizadamente para você:
- Meu caro senhor,
pode voltar daqui a três semanas que já (sic) teremos a bateria do seu relógio
trocada. Desolada, estamos com muitos serviços nessa época... mas não se preocupe,
a nova é de excelente qualidade!
Não dá para
rebater assim:
- Não se incomode, madame, estou meio com pressa e por isso vou
eu mesmo até a China buscar uma bateria nova, mesmo que seja de segunda linha”.
Ou com a
secretária do cardiologista que diz, toda solícita:
- Sim, senhor,
compreendo bem. Essa arritmia não é nada boa.. Já que é urgente, pode vir em
três semanas que o doutor vai lhe atender.
É melhor resistir
à tentação de responder:
- Obrigado pela
gentileza, mademoiselle. Terei prazer em comparecer, se estiver vivo até lá... Caso
contrário, agradeça ao doutor por mim, d’accord?
* leia abaixo as crônicas anteriores ou no Arquivo
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07 julho 2012
12. TURISTAS
Quero dizer logo de cara que tem várias coisas que eu sei que sou, mas não me sinto. Isto é, não sinto ser certas coisas que sei que sou. Dentre elas: velho, brasileiro, rabugento – e turista.
Velho, vou me sentir só quando meu meio de transporte oficial (e único!) for um daqueles triciclos elétricos para gente grande. Brasileiro, eu? Não tomo café, não jogo futebol, não curto sol nem calor, não gosto de festa e não me visto de verde e amarelo para ver um jogo da seleção na TV... Rabugento? Se sou, como tantos dizem, tenho dúvidas; me sinto um pouco crítico em excesso, moderadamente.
Viajando de férias, não escapo de ser turista, mas não me julgo como tal. Sei que sou, mas não me sinto. Fico sempre observando aqueles seres estranhos, os turistas, (compostos de cabeça, tronco, membros e câmera) e seus gravadores ambulantes, os guias.
Eu gosto muito das igrejas góticas e sempre que posso vou visitar uma delas. O problema é que os turistas, ao encherem as igrejas em blocos barulhentos, seguindo um guia papagaiando informações inúteis, tiram qualquer possibilidade de uma experiência estética em qualquer lugar.
Por isso eu me ajoelho e rezo. Quem me vê pensa que eu sou uma pessoa bem religiosa. Mas não sou, não! O que eu rezo é algo assim: “Senhor dono dessa igreja, perdoai a minha chatice assim com não perdoo os que me têm incomodado; livrai-me das excursões e seus guias tagarelas e não me deixeis cair na tentação de entrar na lojinha na saída....”
Eu até gosto de dar uma olhada nas arapucas pega-turista montadas na saída de igrejas, museus e afins,em busca de preciosidades. Afinal, poucas obras de arte superam em impacto uma miniatura de Notre Dame, em gesso made in china, com a inscrição “eu estive em Paris” em letras vermelhas iluminadas a pilha.
Certa vez ganhei de presente de uma pessoa querida que tinha passado pela Polônia um busto de Chopin, de cara amarrada e olhar acusador, encostado em uma cabeça de cavalo que saía de um teclado de piano. Surreal mesmo. Até entendi a cara do homem: qualquer um estaria puto da vida em ser representado daquele jeito! Eu acho que a minha expressão não foi muito diferente quando abri o pacotinho e desembalei o presente...
Fora das lojinhas, identificar um turista em Genebra é a coisa mais fácil do mundo. Ba sta ver quem está com jeito de estar procurando algo por toda parte, sem achar. Olha para cá, olha para lá, para cima e para baixo, anda, volta para onde esteve, consulta um guia, olha em volta, consulta o guia de novo com cara de quem está achando que está na cidade errada... Pode escrever: é turista, coitado!
Ele demora um pouco para sacar que as descrições e fotos do guia que tem em mãos é que não correspondem à realidade que está observando. O livro é tão colorido! Mas a cidade que ele vê é toda cinza. Arrumadinha, pintadinha, parecendo um cenário. Um cenário pintado apenas com duas ou três latas de tinta: cinza, beije e um ocasional rosinha pálido ou amarelinho desmaiado.
Eu prefiro as cidadezinhas italianas, bem coloridas (cores fortes, vivas, em combinações corajosas), pintura velha e descascando, janelas caindo das dobradiças, roupas secando em varais esticados sobre a rua, gente berrando (dizem que estão apenas falando italiano) de uma casa para a outra. Autêntica decadência!
Reconheço que ser turista em Genebra não é nada fácil. Uma vez visto o lago e seu jato d’água, vai encontrar pouca coisa que valha a pena vir de longe para ver, socado em um ônibus de excursão, na companhia de atraentes nonagenárias tagarelas usando talco de alfazemas do século retrasado ou daqueles perfumes que ardem no nariz e deixam a roupa da gente tão "perfumada" (se alguém tem o azar de encostar em uma das moças) que não sai nem lavada com vinagre. Não é para qualquer um.
Não digo que não existem coisas bonitas aqui. Há muito verde, parques cuidados, canteiros com flores, rios limpos, ruas tranquilas, casarões escondidos em bairros sossegados ou pendurados nas encostas do lago, mas para quem vem procurando pontos turísticos equivalentes aos de outras cidades européias, Genebra vai deixar na mão.
Sua mais famosa atração, o Jet d’Eau, é uma cascata às avessas, água que sobe do lago para o ar como se o lago fosse uma enorme bexiga cheia de água que tivesse sido furada - isso quando seus operadores decidem ligá-lo, segundo esquemas que ninguém adivinha. Ouvi um turista brasileiro, mineiro pelo jeito, dizer para a companheira ao ver o famoso jato:
- É isso aí, é? Mas é só um repuxo metido besta, sô!
Claro que é bonito de se olhar o tal esguicho ao longe, enquadrado pela cidade e com as montanhas dos Alpes e do Jura ao fundo, em dias de céu azul e sem vento. Mas dias assim são raros e os turistas precisam de muita sorte para que aconteçam justo quando estiverem de passagem por aqui, para fotografarem-se em frente ao famoso jato. É mais seguro ir logo comprando um postal no aeroporto e depois fazer uma montagem no photoshop (como no filme Amelie Poulin). Afinal, todo cartão postal tem um ar de irrealidade.. .
Tirando o lago e o jato, o que resta? Bem, tem também o relógio de flores, igualzinho a tantos outros, bem sem sal. O legal é quando está sem flores, como no momento. Aí sim é uma atração original: um relógio de não-flores!
Tem ainda a cidade velha, pequena e escondida, com sua feia catedral há séculos sendo desfigurada por padres sem noção. Para os que gostam de compras, há uma rua de pedestres por onde trafegam inúmeros bondes, ônibus e bicicletas. De vez em quando até passam alguns pedestres, que devem ser turistas desavisados. Se preferirem, podem ir a um shopping popular, mas aviso que só vão encontrar duas redes de lojas, que ocupam o shopping todo: uma tal de SOLDES e sua concorrente SALE, ambas com preços de amargar.
O passeio de barco no lago Leman é muito popular. Penso que é porque os turistas querem sair logo de Genebra, mas como têm de esperar a excursão, tentam matar o tempo pulando em um bateau e indo visitar as villages da beira do lago. Coitados, não sabem o que os espera! O passeio começa em uma vila que se vê em quinze minutos, mas o turista acaba tendo de esperar duas horas pelo próximo barco que o levará para repetir o ciclo nas próximas cidadezinhas, sem nada de nada para fazer além de contar patinhos e roer as unhas.
Eu já tinha reparado que vez em quando chega alguém molhado no píer, mas não sabia por quê. Agora sei que esse turista resolveu voltar a nado, preferindo o risco de morrer afogado ou congelado do que de tédio.. .
Enquanto escrevo, me dizem por cima do ombro que estou fazendo propaganda negativa de Genebra. Beleza! Se funcionar, serão alguns turistas a menos na fila para comprar chocolate!
* leia abaixo as crônicas anteriores ou no Arquivo
Velho, vou me sentir só quando meu meio de transporte oficial (e único!) for um daqueles triciclos elétricos para gente grande. Brasileiro, eu? Não tomo café, não jogo futebol, não curto sol nem calor, não gosto de festa e não me visto de verde e amarelo para ver um jogo da seleção na TV... Rabugento? Se sou, como tantos dizem, tenho dúvidas; me sinto um pouco crítico em excesso, moderadamente.
Viajando de férias, não escapo de ser turista, mas não me julgo como tal. Sei que sou, mas não me sinto. Fico sempre observando aqueles seres estranhos, os turistas, (compostos de cabeça, tronco, membros e câmera) e seus gravadores ambulantes, os guias.
Eu gosto muito das igrejas góticas e sempre que posso vou visitar uma delas. O problema é que os turistas, ao encherem as igrejas em blocos barulhentos, seguindo um guia papagaiando informações inúteis, tiram qualquer possibilidade de uma experiência estética em qualquer lugar.
Por isso eu me ajoelho e rezo. Quem me vê pensa que eu sou uma pessoa bem religiosa. Mas não sou, não! O que eu rezo é algo assim: “Senhor dono dessa igreja, perdoai a minha chatice assim com não perdoo os que me têm incomodado; livrai-me das excursões e seus guias tagarelas e não me deixeis cair na tentação de entrar na lojinha na saída....”
Eu até gosto de dar uma olhada nas arapucas pega-turista montadas na saída de igrejas, museus e afins,em busca de preciosidades. Afinal, poucas obras de arte superam em impacto uma miniatura de Notre Dame, em gesso made in china, com a inscrição “eu estive em Paris” em letras vermelhas iluminadas a pilha.
Certa vez ganhei de presente de uma pessoa querida que tinha passado pela Polônia um busto de Chopin, de cara amarrada e olhar acusador, encostado em uma cabeça de cavalo que saía de um teclado de piano. Surreal mesmo. Até entendi a cara do homem: qualquer um estaria puto da vida em ser representado daquele jeito! Eu acho que a minha expressão não foi muito diferente quando abri o pacotinho e desembalei o presente...
Fora das lojinhas, identificar um turista em Genebra é a coisa mais fácil do mundo. Ba sta ver quem está com jeito de estar procurando algo por toda parte, sem achar. Olha para cá, olha para lá, para cima e para baixo, anda, volta para onde esteve, consulta um guia, olha em volta, consulta o guia de novo com cara de quem está achando que está na cidade errada... Pode escrever: é turista, coitado!
Ele demora um pouco para sacar que as descrições e fotos do guia que tem em mãos é que não correspondem à realidade que está observando. O livro é tão colorido! Mas a cidade que ele vê é toda cinza. Arrumadinha, pintadinha, parecendo um cenário. Um cenário pintado apenas com duas ou três latas de tinta: cinza, beije e um ocasional rosinha pálido ou amarelinho desmaiado.
Eu prefiro as cidadezinhas italianas, bem coloridas (cores fortes, vivas, em combinações corajosas), pintura velha e descascando, janelas caindo das dobradiças, roupas secando em varais esticados sobre a rua, gente berrando (dizem que estão apenas falando italiano) de uma casa para a outra. Autêntica decadência!
Reconheço que ser turista em Genebra não é nada fácil. Uma vez visto o lago e seu jato d’água, vai encontrar pouca coisa que valha a pena vir de longe para ver, socado em um ônibus de excursão, na companhia de atraentes nonagenárias tagarelas usando talco de alfazemas do século retrasado ou daqueles perfumes que ardem no nariz e deixam a roupa da gente tão "perfumada" (se alguém tem o azar de encostar em uma das moças) que não sai nem lavada com vinagre. Não é para qualquer um.
Não digo que não existem coisas bonitas aqui. Há muito verde, parques cuidados, canteiros com flores, rios limpos, ruas tranquilas, casarões escondidos em bairros sossegados ou pendurados nas encostas do lago, mas para quem vem procurando pontos turísticos equivalentes aos de outras cidades européias, Genebra vai deixar na mão.
Sua mais famosa atração, o Jet d’Eau, é uma cascata às avessas, água que sobe do lago para o ar como se o lago fosse uma enorme bexiga cheia de água que tivesse sido furada - isso quando seus operadores decidem ligá-lo, segundo esquemas que ninguém adivinha. Ouvi um turista brasileiro, mineiro pelo jeito, dizer para a companheira ao ver o famoso jato:
- É isso aí, é? Mas é só um repuxo metido besta, sô!
Claro que é bonito de se olhar o tal esguicho ao longe, enquadrado pela cidade e com as montanhas dos Alpes e do Jura ao fundo, em dias de céu azul e sem vento. Mas dias assim são raros e os turistas precisam de muita sorte para que aconteçam justo quando estiverem de passagem por aqui, para fotografarem-se em frente ao famoso jato. É mais seguro ir logo comprando um postal no aeroporto e depois fazer uma montagem no photoshop (como no filme Amelie Poulin). Afinal, todo cartão postal tem um ar de irrealidade.. .
Tirando o lago e o jato, o que resta? Bem, tem também o relógio de flores, igualzinho a tantos outros, bem sem sal. O legal é quando está sem flores, como no momento. Aí sim é uma atração original: um relógio de não-flores!
Tem ainda a cidade velha, pequena e escondida, com sua feia catedral há séculos sendo desfigurada por padres sem noção. Para os que gostam de compras, há uma rua de pedestres por onde trafegam inúmeros bondes, ônibus e bicicletas. De vez em quando até passam alguns pedestres, que devem ser turistas desavisados. Se preferirem, podem ir a um shopping popular, mas aviso que só vão encontrar duas redes de lojas, que ocupam o shopping todo: uma tal de SOLDES e sua concorrente SALE, ambas com preços de amargar.
O passeio de barco no lago Leman é muito popular. Penso que é porque os turistas querem sair logo de Genebra, mas como têm de esperar a excursão, tentam matar o tempo pulando em um bateau e indo visitar as villages da beira do lago. Coitados, não sabem o que os espera! O passeio começa em uma vila que se vê em quinze minutos, mas o turista acaba tendo de esperar duas horas pelo próximo barco que o levará para repetir o ciclo nas próximas cidadezinhas, sem nada de nada para fazer além de contar patinhos e roer as unhas.
Eu já tinha reparado que vez em quando chega alguém molhado no píer, mas não sabia por quê. Agora sei que esse turista resolveu voltar a nado, preferindo o risco de morrer afogado ou congelado do que de tédio.. .
Enquanto escrevo, me dizem por cima do ombro que estou fazendo propaganda negativa de Genebra. Beleza! Se funcionar, serão alguns turistas a menos na fila para comprar chocolate!
* leia abaixo as crônicas anteriores ou no Arquivo
19 junho 2012
11. CALOR, BARULHO E VIZINHOS.
O verão já está
começando a invadir a primavera. Horrível!!!
Alem do calor,
detestável como sempre, com o verão vem toda espécie de praga: moscas,
mariposas, pernilongos, vespas – e vizinhos.
Minha sorte com
vizinhos é sempre estatisticamente exata: 50%. Onde quer que eu vá, sei que
metade dos meus vizinhos vai ser gente decente, que fica na sua, em casa, sem
querer amizade ou bate-papo furado. Mas metade vai ser
insuportavemente extrovertida, amistosa, receptiva, alegre ... e barulhenta.
Nem aqui em Genebra
eu consegui fugir dessa regra. De um lado temos (eu acho) vizinhos suíços: nunca
os vejo, sequer os ouço. Perfeitos!
Do outro lado,
porém, tenho um casal de ursos com dois ursinhos. Ou quatro marmotas. No
inverno, acho que hibernam, pois não vejo ninguém colocar o nariz para fora,
jamais. Esquentou um pouco, porém, e eles saem da toca, felizes e contentes,
invadindo o próprio quintal, onde ficam dia e noite brincando com as crianças
(onde já se viu!) conversando (não sei como têm tanto assunto) e fazendo churrasco,
ou seja lá o que eles assam na grelha. O pior é que cantam e tocam violão e
atabaques, numa mistura cacofônica de salsa, rumba, reggae, axé e aparentados. Muito
barulho até para mim, que sou tão tolerante com isso.
Do lado oposto,
continuavam silenciosos até a semana passada. Tão silenciosos que eu até pensei em
dar uma olhada para ver se não tinha ocorrido um daqueles assassinatos em série,
roteiro de tantos filmes e livros que se passam por estas bandas. J a tinha imaginado até um carro da polícia científica estacionando em frente de casa - que emocionante! Mas emprestei
o estetoscópio da Mari, grudei na parece e consegui ouvir, bem distante mas
claramente, sons de pessoas conversando. Alivio...
O sossego durou
pouco, porém. Veio o início do verão e os meninos montaram sua mesa de pingue-pongue
no quintal, bem embaixo (ou quase) da minha janela. E dá-lhe pingue de cá,
pongue de lá, pongue-e-pingue-e-pongue por horas a fio... Ainda bem que, suiçamente, param de jogar e dobram
a mesa antes das 22 horas. Não fosse isso, e talvez eu fosse capaz de implicar
com eles - se fosse ranzinza como dizem. Como não sou, coloco tampões nos
ouvidos, vou ler no porão e nem reclamo. Só resmungo.
São coisas como
estas que me levam a detestar cada vez mais o verão. Eu realmente não
compreendo as pessoas que ficam felizes quando o sol mostra sua cara
antipática, torrando peles e carecas e o céu esconde suas lindas nuvens onde
ninguém as pode ver. O vento e a garoa,
intimidados por tanto brilho, também se escondem e me deixam com saudades dos
dias frios e cinzentos, muito mais civilizados.
Eu ia dizer “mais
curitibanos”, mas lembrei que, para meu horror, sei de alguns curitibanos que
também gostam de sol, calor, céu azul e todas as horríveis coisas que vêm junto
com o verão. Renegados!
Desconfio que
aqueles que gostam do verão, alem de não ouvirem bem (não se incomodam com
o barulho) não têm o sentido do olfato muito desenvolvido também, pois parecem
imunes aos “aromas” da estação - corporais e ambientais - dentre os quais se
destacam o lixo com cascas de camarão e a nauseabunda combinação de suor, bronzeador e colônia "acqua fresca".
Não dá para agüentar, nem a céu aberto e com vento!
Aqui em Genebra,
evito a beira do lago nessa época. Está cheia de flores, cachorrinhos tosados, patinetes - e de
gente alegre, querendo tomar um pouco de sol em suas peles leitosas. Não sei de
onde saem tantas pessoas sorridentes: não é a mesma Genebra! Onde foi parar a
cidade cinzenta e quase deserta que se via há alguns poucos meses? Vai ver que
foi dobrada e guardada bem no fundo do armário de São Pedro, de onde sairá, molhada e gelada, no próximo dezembro, espantando o coro dos contentes de volta para suas casas e
lareiras.
Felizmente!
* leia abaixo as crônicas anteriores ou no Arquivo
12 junho 2012
10. A HORTA DA VELHINHA.
Acabei de sair, sob custódia, do famigerado hospital universitário, onde andei tomando uns choques e coletando material para contar novas histórias hospitalares no Macaco Alpino. Mas essas vão ficar para depois.
Hoje quero comentar uma coisa muito boa (eles têm coisas boas, sim, além do queijo e do chocolate!) que tenho visto e vivido por aqui: a democracia direta, ao vivo e a cores. E uma de suas filhas, a qualidade de vida. Aqui se vota em tudo, seja no âmbito nacional (Confederação Helvética), cantonal (Genebra) ou comunal (no nosso caso, Chênes-Bougeries).
Desde que chegamos, já presenciei diversas votações. Votou-se em que raças de cães deveriam ser banidas do cantão, na manutenção ou não das aulas nas quartas-feiras à tarde (ficaram), no aumento das férias para seis semanas ao ano (perdeu feio, em um país de pequenas empresas), no aumento da punição para vândalos e muitas outras.
Recentemente foi aprovada, em referendo público, uma alteração no zoneamento urbano para incluir zonas regulamentares para as zonas! Afinal, diziam, a prostituição é uma profissão legalizada e deve seguir as mesmas normas que as demais atividades, que sempre tiveram seus espaços delimitados.
No ano passado a comuna de Chênes-Bougeries foi eleita a mais florida do cantão. No início desse ano votou-se a manutenção do orçamento destinado ao ajardinamento, para tentar o bicampeonato. Perdeu. “Já ganhamos uma vez, é suficiente”, disse um votante. “Vamos dar oportunidade para as demais comunas e gastar o dinheiro em coisas mais importantes, como a criação de um apiário comunal”.
Termino com um caso emblemático. Uma construtora pediu autorização ao órgão equivalente à nossa prefeitura, para construir um predinho de 6 andares em nossa comuna. Uma senhora de idade, cuja casa ficava bem ao lado do terreno visado, saiu a campo coletando assinaturas para colocar o caso em votação popular. E conseguiu.
As duas partes então saíram em busca de eleitores que se dispusessem a votar - e que votassem em seu favor. A velhinha bateu de casa em casa, expondo suas razões - e ganhou a votação com larga margem. Seu argumento: o prédio faria sombra em sua horta e mataria as plantinhas que ela cuidava com carinho há décadas, e que, segundo ela, já estavam desde o tempo de seus avós, configurando (se não legalmente, ao menos moralmente) um direito adquirido.
Nada de predinho, então.
Quem vier a Genebra e quiser checar o que é qualidade de vida e a força da participação direta, dê uma passadinha pela casa da velhinha. Lá verá a pequena horta no lugar de sempre, na claridade do dia, gloriosamente dando seus tomatinhos, alfacinhas e salsinhas, como fazia há tanto tempo.
* leia abaixo as crônicas anteriores ou no Arquivo
Hoje quero comentar uma coisa muito boa (eles têm coisas boas, sim, além do queijo e do chocolate!) que tenho visto e vivido por aqui: a democracia direta, ao vivo e a cores. E uma de suas filhas, a qualidade de vida. Aqui se vota em tudo, seja no âmbito nacional (Confederação Helvética), cantonal (Genebra) ou comunal (no nosso caso, Chênes-Bougeries).
Desde que chegamos, já presenciei diversas votações. Votou-se em que raças de cães deveriam ser banidas do cantão, na manutenção ou não das aulas nas quartas-feiras à tarde (ficaram), no aumento das férias para seis semanas ao ano (perdeu feio, em um país de pequenas empresas), no aumento da punição para vândalos e muitas outras.
Recentemente foi aprovada, em referendo público, uma alteração no zoneamento urbano para incluir zonas regulamentares para as zonas! Afinal, diziam, a prostituição é uma profissão legalizada e deve seguir as mesmas normas que as demais atividades, que sempre tiveram seus espaços delimitados.
No ano passado a comuna de Chênes-Bougeries foi eleita a mais florida do cantão. No início desse ano votou-se a manutenção do orçamento destinado ao ajardinamento, para tentar o bicampeonato. Perdeu. “Já ganhamos uma vez, é suficiente”, disse um votante. “Vamos dar oportunidade para as demais comunas e gastar o dinheiro em coisas mais importantes, como a criação de um apiário comunal”.
Termino com um caso emblemático. Uma construtora pediu autorização ao órgão equivalente à nossa prefeitura, para construir um predinho de 6 andares em nossa comuna. Uma senhora de idade, cuja casa ficava bem ao lado do terreno visado, saiu a campo coletando assinaturas para colocar o caso em votação popular. E conseguiu.
As duas partes então saíram em busca de eleitores que se dispusessem a votar - e que votassem em seu favor. A velhinha bateu de casa em casa, expondo suas razões - e ganhou a votação com larga margem. Seu argumento: o prédio faria sombra em sua horta e mataria as plantinhas que ela cuidava com carinho há décadas, e que, segundo ela, já estavam desde o tempo de seus avós, configurando (se não legalmente, ao menos moralmente) um direito adquirido.
Nada de predinho, então.
Quem vier a Genebra e quiser checar o que é qualidade de vida e a força da participação direta, dê uma passadinha pela casa da velhinha. Lá verá a pequena horta no lugar de sempre, na claridade do dia, gloriosamente dando seus tomatinhos, alfacinhas e salsinhas, como fazia há tanto tempo.
* leia abaixo as crônicas anteriores ou no Arquivo
03 junho 2012
9. INVENÇÕES SUÍÇAS.
Etnocêntrico, nos ensina seu
Aurélio, é quem pensa que o mundo gira em torno do seu povo. Os suíços são um
povo que tem certeza disso.
Para provar para si mesmos essa
noção, escolheram viver no centro da Europa (sem contar a Rússia, um pequeno
detalhe esquecido) e cá está a Suíça, o umbigo da Europa ocidental. Cheia de
suíços grudados nele como um piercing, pensando ser o coração...
Assim como os umbigos, é
pequena, está cercada de montanhas, é resquício de algo que foi importante mas
hoje não é mais – e quem olhar lá dentro vai sempre encontrar alguma sujeirinha
escondida.
Digo isso porque os suíços
inventaram a conta bancária anônima, a prova definitiva que fortunas não têm
nome – mas tem dono e deixam uma sobrinha boa para quem as guarda em nome dos
que preferem não ter nome.
Este é um bom exemplo da forma
suíça de agir: eles não são tão bons em inventar coisas, mas são ótimos em
aprimorar as invenções dos outros. Veja só, os suíços:
· não
inventaram o relógio - mas inventaram o relógio cuco.
· não
inventaram a faixa de pedestres – mas inventaram os pedestres que atravessam na
faixa.
· não
inventaram o queijo – mas sim o buraco do queijo e o queijo derretido.
· não
inventaram o cacau, nem o açúcar, nem o leite, nem mesmo o chocolate – mas
inventaram o chocolate suíço e suas deliciosas versões com sal e com pimenta.
· não
inventaram o canivete, mas sim a oficina mecânica dentro de um canivete.
· não
inventaram a vaca, mas inventaram a sineta (cincerro) alpina.
· não
inventaram o café nem a água – criaram o café solúvel.
· não
inventaram o trem, mas sim o trenzinho elétrico.
· não
inventaram a batata frita, mas aproveitaram aparas e sobras de molhos para
inventar a batata suíça (a bem da justiça registre-se que eles não inventaram o
“kreps” suíço).
Os exemplos são muitos e me
levam a acreditar que uma pesquisa cuidadosa poderia revelar que outras coisas
foram inventadas ou aprimoradas por eles a partir de coisas inventadas por
povos menos empreendedores. Tais como:
· a
cor cinza (que recobre todas as suas cidades)
· o
pratinho de pendurar na parede
· a
cruz vermelha, a cruz verde, a cruz azul, o crescente vermelho e a cruz branca,
que teve de ser posta sobre fundo vermelho (testaram antes a cruz branca em
fundo branco mas ficou meio sem graça até para eles mesmos).
· o
exército pacífico e neutro (contradição em termos?)
· o
bom selvagem, no qual acreditavam até terem dois missionários comidos pelos
tupinambás, que descobriram assim o bom suíço.
· os
estacionamentos subterrâneos de vários andares circulares, tipo parafuso – que
fazem com que ao sair deles ninguém saiba para onde está virado, causando problemas
no trânsito.
· a
ciclovia no centro da rua, para os ciclistas poderem atrapalhar as duas mãos ao
mesmo tempo.
· os
túneis quilométricos ligando o nada a coisa nenhuma, por debaixo de
montanhas cortadas por belas
rodovias.
· o
cachorro que anda sozinho de ônibus (fala-se em um gato que anda sozinho de bicicleta)
· o
sinal de trânsito que fica sempre no vermelho - e o que fica ligado
simultaneamente no vermelho, amarelo, verde e branco.
· s rígidas regras de silêncio e, quem
sabe, o próprio silêncio.
Fico por aqui por falta de
espaço no blog, mas não antes de relatar o melhor exemplo do modo suíço de
inventar.
George de Mestral gostava de levar seu cachorrinho à caça mas aquele tirar-e-por
de coleira no doguinho o cansava. Um dia, em 1948, George se irritou também com
a quantidade de pico-pico grudado nas suas roupas e no pelo do cachorro. Ele
pensou, pensou, juntou observação e aplicação - e estava inventado o velcro.
Em suma, um pico-pico sintético - devidamente patenteado, é claro.
Riiiip!
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